Já ouço os uivos ao longe, que chamam por mim. Na escuridão desta noite fria, saio de casa. Passo rápido. Sinto o ar que me gela os pulmões no acto instintivo de respirar, e só hábito, o oxigénio há muito que não me corre no sangue. Não é mais vital, nada é mais vital, todos os vícios humanos deixaram de me atormentar. Respirar, comer, beber, deixou de ser útil na minha existência. Só algo permanece. Uma força que todos os dias me faz abandonar as ruínas onde me abrigo dos elementos. Aquela igreja decrépita que dá a ilusão de segurança que mesmo um ser como eu precisa para suportar as longas horas de ausência. Nenhum animal ousa perturbar a calma do meu refúgio, sinto medo nos olhos deles. Aquele lugar é amaldiçoado.
Deslumbro ao longe, por entre as copas, o local para onde me dirijo, poderia flutuar ate lá, mas prefiro manter me no solo. Um vestígio, da minha anterior condição. A erva, as pequenas pedras, que me ferem, os galhos caídos, as pétalas das flores caídas, massacradas pela vil ordem das coisas.
Sou seguido. Ouço a sua respiração atrás de mim, sinto a sua capa que revolve a terra onde passa, mas falta algo, um bater constante e ritmado. Não e humano. Não é ainda esta noite, digo. A resposta, o mais absoluto silêncio. Continuo. Sei que amanhã voltará, e talvez amanhã me leve.
Como sempre nenhuma animal se atreve a cruzar o meu caminho, só as árvores parecem indiferentes a minha presença. Mas e daí, elas não se mexem. São obrigadas, à reclusão perpétua desde o seu brotar ate ao momento em que, como todos os gigantes um dia, caem. E se libertam.
Acabaram as árvores. Agora pela frente apenas pedra, fria, insensível, desprovida de vida. Sensação familiar.
Subo, as forças ainda abundam em mim, e esta subida e apenas mais um desafio auto imposto. Quero sentir nas mãos, as feridas, os cortes, que cada gume afiado imprime nos meus membros. Mais uma vez sinto-me vivo com estas pequenas provações a que me imponho. O cimo e distante. Não tenho a noite toda, apresso-me. Não e tarde mas não me posso atrasar, é demasiado importante.
Chego. Finalmente. Maldito hábito. Estou ofegante, acto reflexo após esforço. Nada o justifica, apenas a minha maldição.
A paisagem e lindíssima. Não há luar, e o céu negro escurece a floresta abaixo. A visão como a conhecemos não nos serve. Mas vejo tudo o que se passa. Fecho os olhos e sinto, os movimentos, as almas, os animais, os elementos. Visão deliciosa. Nocturna e sombria. Deliciosa.
Sento-me. Espero. Sempre a espera, mas a espera faz-nos perceber se o que esperamos faz realmente sentido, se a espera vale realmente a pena.
O vento parou, ouço de novo o coro de lobos que corta a noite silenciosa. É hora. Levanto-me. Sem tempo para pensar, invades-me. Um arrepio percorre-me, o êxtase e a dor misturam-se. Pulsação, ligações nervosas, carne, fluidos. Sinto-me humano. A fraqueza desta condição, alegra-me. Porque contigo estou seguro. Não te sei definir, mas desde que o acaso nos apresentou neste mesmo local em tempos idos, que não há dia que não faça este percurso nocturno para te encontrar. Materializo-me completamente. Como sempre não te vejo, só te sinto. Todos os sentidos se unem, sentem como um só. Amplificando o sinal de cada um a um nível que nenhum Homem alguma vez sentiu. Feitiçaria, talvez, não costumo questionar a origem das coisas que me fazem bem. A tua presença acaricia-me. Fala-me ao ouvido, uma língua estranha mas que eu compreendo como se sempre fosse a única língua alguma vez apreendida mas que não consigo reproduzir verbalmente. Abro os braços e inspiro, a condição humana que me dás, permite o contacto contigo, e a sensação é tão boa. Gratificante, anestesiante, acalma as minhas dores, e alegra a minha noite. Esperei por isto todas as horas deste penoso dia. É o nosso momento. Dura até o primeiro raio de Sol aparecer e acaba de repente. Nunca é demais e sabe sempre a pouco. Mas... para o Sol Nascente... ainda falta muito. Vamos aproveitar meu amor. Não te sei definir mas amo-te. Pelo efeito que tens em mim, pelo que me fazes fazer, por ti e pela tua presença todas as noites neste cenário sombrio faço tudo. Mesmo tudo. Não me deixes pelo menos até o triste devorador de almas, que ainda esta noite me seguiu, deixar de me atormentar com a sua presença inactiva. E me dê o golpe.
Vamos aproveitar, meu amor.
Edgar Carneiro
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